Desenvolvimento cognitivo: 9 práticas para a sala de aula

A capacidade de absorver e de assimilar informações é essencial para o processo de aprendizagem do ser humano. Considerando que o cuidado com a questão deve surgir ainda na educação infantil, é papel da escola trabalhar o desenvolvimento cognitivo de maneira adequada, desde o primeiro dia de aula da criança, levando em conta as características inerentes a cada fase do desenvolvimento.

Para tanto, muitos educadores se baseiam na teoria de Jean Piaget, importante pensador do século XX e um dos psicólogos mais conhecidos. Segundo ele, o desenvolvimento humano ocorre em quatro estágios sucessivos, que costumam surgir em faixas etárias específicas, independentemente da origem ou cultura da criança.

Para entender melhor a influência desse estudo nas escolas infantis, continue acompanhando este artigo. Vamos explicar a importância do desenvolvimento cognitivo, de que maneira ele funciona e as melhores formas de trabalhá-lo em sala de aula! Boa leitura!

O que é desenvolvimento cognitivo na educação infantil?

O termo “cognição” se refere ao conjunto de habilidades mentais que são básicas para a construção de conhecimento sobre o mundo. Como processos cognitivos, podemos citar todos aqueles relacionados ao desenvolvimento do raciocínio, pensamento, memória, abstração, imaginação, linguagem, entre outras características importantes.

Tais processos permitem ao homem reconhecer o mundo à sua volta e compreender determinado assunto para, então, fazer julgamentos ou solucionar problemas por meio do raciocínio. De forma resumida, a cognição é a maneira como o cérebro percebe, aprende, pensa e recorda determinada informação que foi captada pelos cinco sentidos.

A cognição é, ainda, um mecanismo que converte aprendizados para o modo de ser interno de cada ser humano. Portanto, o conceito também pode representar o processo pelo qual uma pessoa interage com seus semelhantes e com o ambiente em que vive — incluindo a escola infantil —, sem que perca sua identidade ao longo do tempo.

Para haver construção de conhecimento, as funções de várias regiões cerebrais devem estar íntegras e, principalmente, maduras e de acordo com a idade do indivíduo. Nesse sentido, é fundamental que professores da educação infantil estudem e trabalhem com práticas que sejam benéficas para o adequado desenvolvimento cognitivo de seus alunos.

Desenvolvimento infantil x desenvolvimento cognitivo

Toda pessoa nasce inserida em uma sociedade, na qual passa a ser criadora de cultura e produtora da história. Quando crianças, construímos nosso conhecimento a partir da nossa própria realidade, com base nas condições em que vivemos e, também, a partir do relacionamento com os outros. É nesse sentido que faz toda a diferença ter o apoio e a orientação de bons profissionais desde a fase escolar.

O processo de aprendizagem não acontece de forma rápida e completa, todo de uma vez. Ele se inicia no ventre da mãe e segue todo um caminho ao longo da vida. Dada essa característica, é essencial desenvolver atividades que permitam às crianças evoluir suas potencialidades ao máximo, evitando a temida inibição cognitiva — diminuição da atuação de algum aspecto da cognição.

A importância do desenvolvimento cognitivo na educação infantil

O desenvolvimento das crianças deve ser medido e acompanhado como uma estratégia de prevenção de saúde. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta sobre a importância de vigiar possíveis atrasos ou distúrbios nos diversos eixos do desenvolvimento infantil: motor, social, afetivo, adaptativo e cognitivo.

A identificação precoce de qualquer anormalidade pode ser debatida no planejamento escolar, a fim de diminuir problemas na aprendizagem infantil. Além de acompanhar o desempenho de seus alunos, a escola deve propiciar um ambiente adequado e executar práticas que estimulem as habilidades cognitivas. Assim, é possível prevenir fatores médicos e ambientais que possam alterar a estrutura e o funcionamento do cérebro.

Devemos partir do princípio que, de certa forma, educadores têm, algumas vezes, mais referências para avaliação do que os pais. Isso porque esses profissionais convivem diariamente com um grande número de pessoas da mesma faixa etária, sendo mais fácil acostumar-se a observar padrões e realizar comparativos. Embora cada indivíduo tenha suas características singulares, existem alguns aspectos de desenvolvimento que, quando fora da curva, merecem atenção.

A importância do desenvolvimento cognitivo no futuro da educação

Hoje em dia, além das ferramentas comuns do dia a dia, escolas contam com diversos canais tecnológicos, que permitem auxiliar ainda mais no desenvolvimento cognitivo dos seus alunos. Devemos levar em conta também o quanto as mudanças no meio impactam nessa capacidade de desenvolvimento. As novas gerações já nascem em contato com a tecnologia.

Ao que tudo indica, o futuro da educação infantil será marcado a cada vez mais pela presença tecnológica. É por isso que, desde os primeiros anos escolares, as crianças precisam ser preparadas para esse contexto. Um bom desenvolvimento cognitivo desde os primeiros anos de vida permite melhor integração com novos processos nos anos seguintes.

A visão de Piaget sobre o desenvolvimento cognitivo

Jean William Fritz Piaget (1896–1980) desenvolveu a teoria do desenvolvimento cognitivo da criança observando seus próprios filhos interagindo com o meio. Segundo ele, o público infantil tem uma maneira particular de pensar e aprender, e demonstra esses processos em quatro estágios sucessivos. Confira quais são:

Estágio sensório-motor

Ocorre do nascimento aos 2 anos de idade. Aqui, a inteligência da criança é essencialmente prática e, portanto, as ações de reflexo predominam. A relação com o meio ambiente começa após o primeiro mês de vida, mas não se dá pelo raciocínio lógico ou representação simbólica. Em vez disso, a interação acontece pela experimentação direta.

O período em que as ações são executadas por alguém que ainda não se reconhece como sujeito é denominado “egocentrismo radical”. Afinal, mesmo não fazendo inferências a si mesma, a criança pratica atos primitivos que evidenciam um reconhecimento nas ações. É nessa fase que são iniciadas atividades motoras, como tocar, agarrar, sugar, chorar, entre outras.

Estágio pré-operatório

Ocorre dos 2 aos 6 anos. Nesse período, o egocentrismo predomina, ou seja, a criança ainda não consegue se colocar no lugar do outro e pratica o monólogo. Como a prioridade está nos aspectos que são relevantes aos olhos do próprio indivíduo, a leitura da realidade se torna parcial e incompleta.

Ao longo do tempo, a percepção abstrata vai ficando mais aguçada, à medida que aumenta a capacidade de simular e imaginar figuras, situações ou pessoas. No chamado pré-operatório ou pré-operacional, a criança passa a conhecer e assimilar o meio, utilizando a linguagem e os jogos simbólicos como meio de comunicação.

Estágio operatório concreto

Ocorre dos sete aos 12 anos. É quando a lógica começa a se desenvolver e a criança passa a organizar e sistematizar diferentes situações. Nesse período, a compreensão do mundo não é mais tão prática, embora ainda dependa do mundo concreto para realizar abstrações.

É aqui que o egocentrismo intelectual e social vai dar lugar à necessidade de estabelecer relações e considerar pontos de vista diferentes. Além disso, a criança também começa a executar operações mentalmente (definir distâncias, medidas, alturas), e não se limita mais às ações físicas da inteligência sensório-motora.

Estágio das operações formais

Ocorre dos 12 anos em diante e destaca o amadurecimento dos conceitos infantis. Aqui, predomina a lógica formal, pois a criança/adolescente já consegue realizar abstrações sem o auxílio de representações concretas e imaginar situações nunca antes vistas ou vivenciadas.

Ao chegar a essa fase, o indivíduo atinge sua forma final de equilíbrio, ou seja, consegue alcançar um padrão intelectual que vai perdurar durante toda a idade adulta. Isso não significa que haverá estagnação das funções cognitivas. Afinal, o desenvolvimento posterior consistirá na ampliação de conhecimentos, seja em extensão, seja em profundidade.

É importante que os professores da educação infantil compreendam os diferentes estágios que englobam a aquisição de conhecimento. Dessa forma, poderão contribuir ainda mais com ações que favoreçam o processo de ensino e aprendizagem.

Fatores que influenciam o desenvolvimento cognitivo

O estudo de Piaget considera que o desenvolvimento humano envolve mecanismos bastante complexos e fatores que se complementam, como o processo de maturação do organismo, a vivência social do indivíduo, a experiência com objetos e, ainda, o equilíbrio com o meio.

Para o autor, são dois fatores básicos que influenciam o desenvolvimento cognitivo:

Fatores invariantes

Para Piaget, ao nascer, uma pessoa recebe como herança uma série de estruturas biológicas — sensoriais e neurológicas —, as quais permanecem constantes ao longo de toda a vida. Logo, são essas estruturas biológicas que vão predispor o surgimento de determinadas estruturas mentais. Trata-se de uma questão estritamente genética, transmitida de pais para filhos.

Com base nisso, considera-se que cada pessoa carrega duas marcas inatas: a tendência natural à organização e à adaptação. Isso significa que, em última instância, o principal motor do comportamento do homem é inerente ao ser, algo que já nasce com ele e, portanto, não é passível de modificação.

Fatores variantes

Os fatores variantes constituem a unidade básica do pensamento piagetiano como um elemento que se transforma durante o processo de interação com o meio (incluindo a sala de aula), buscando a adaptação do indivíduo ao ambiente que o circunda. De acordo com esse princípio, algumas características são desenvolvidas de acordo com o meio em que o indivíduo está inserido em seus primeiros anos de vida.

Aqui, a teoria deixa claro que a inteligência não é herdada, mas construída no processo interativo entre o homem e o espaço (físico e social) em que está inserido. Isso daria margem a interpretações de que, o desenvolvimento cognitivo pode ser moldado inteiramente por pais e educadores.

Equilíbrio entre essas duas vertentes

Para Piaget, o equilíbrio é o que o organismo almeja e, mesmo assim, nunca alcança. Afinal, no processo de interação podem surgir desajustes que rompem com o estado de equilíbrio do organismo, exigindo esforços para o restabelecimento da adaptação. Isso colocaria em xeque as características até então consideradas invariantes.

Entretanto, sempre é possível adequar-se ao meio, cuidando sempre para que a singularidade não seja perdida. A busca de novas formas de adaptação engloba dois mecanismos que, embora diferentes, são indissociáveis:

Assimilação

É a tentativa do indivíduo de solucionar um problema específico a partir da estrutura cognitiva que tem naquele momento de sua existência. Trata-se de algo que vai mudando com o passar dos anos e a evolução no desenvolvimento.

Acomodação

É a capacidade de modificar a estrutura mental antiga para dominar outro objeto do conhecimento. Trata-se de um processo que acontece ao longo dos primeiros anos de vida e necessita de estímulos e acompanhamento de pais e professores.

Os mecanismos de assimilação e acomodação são complementares e se fazem presentes ao longo da vida de cada indivíduo, o que permite um estado de adaptação intelectual, que nunca estará concluído.

Como fortalecer o desenvolvimento cognitivo com novas ideias

O vocabulário de uma criança pode começar a ser ampliado, desde que ela ainda é um bebê. Conversar, ainda que a criança pareça não entender bem o que você diz, fará com que ela amplie a sua percepção do mundo. Também os brinquedos educativos permitem que os pequenos exercitem a sua curiosidade, explorando tais ferramentas.

Mais tarde, oferecer jogos sensoriais e de raciocínio, contar histórias e demonstrar curiosidade pelos assuntos de interesse da criança são uma forma de estimular o desenvolvimento cognitivo e construir vínculos. Com o tempo, eles também podem ganhar certa autonomia na escolha entre algumas opções de brincadeiras e atividades.

9 práticas benéficas para o desenvolvimento cognitivo

Para que tenha valor cognitivo, uma atividade didática precisa ser lúdica. Nesse sentido, as escolas necessitam adotar ações que divirtam os alunos sem a atribuição formal de um processo educativo. Com esse cuidado, é possível tornar a experiência mais atrativa e proveitosa para as crianças. Elas aprendem enquanto se divertem, sem se dar conta, ao certo, de que estão, na verdade, estudando.

Neste tópico, vamos listar nove práticas benéficas para o desenvolvimento cognitivo e que podem ser aplicadas em sala de aula. Confira as opções:

1. Adivinhação

Brincadeiras que propõem adivinhações são ótimas para desenvolver a capacidade de abstração, concatenação e formação de ideias. Elas estimulam a criatividade e a composição do imaginário infantil.

2. Brincadeira com água

Brincar na água é algo de que o público infantil gosta, além de ser uma atividade benéfica para crianças com perfil mais agitado. Experimentos com pincéis e baldes com água limpa podem ser feitos para propor a limpeza de uma parede ou outra superfície.

3. Jogos de silêncio e imobilidade

Atividades que desafiam as crianças a ficar em silêncio e/ou imóveis por determinado período são excelentes para exercitar o controle motor e o autodomínio das emoções. Um bom exemplo nesse caso é a antiga brincadeira de “estátua”.

4. Cantos e danças

Brincadeiras cantadas e que envolvem alguma dança ou outro tipo de movimento (por exemplo, dança das cadeiras) são atividades de grande valor nas escolas infantis. Canções suaves, com ritmos equilibrados e harmônicos, atuam na formação das sinapses auditivas e estimulam o surgimento de emoções positivas.

5. Atividades ao ar livre

Mudar de ambiente no horário de aula pode ser muito interessante para as crianças. Os professores podem planejar atividades ao ar livre, que permitam o contato com plantas e animais.

É importante aproveitar o momento para explicar a importância da fauna e da flora, a fim de despertar na turma o amor à natureza e o senso de cooperação, de que dividimos o nosso planeta com outros seres vivos, que também merecem atenção e respeito.

6. Plantio e jardinagem

Ensinar o cuidado com as plantas, desde o plantio até a rega das mudinhas, é uma prática importante para despertar a sensibilidade ecológica em crianças de todas as idades. Se a escola tiver espaço suficiente, vale até montar uma horta ou jardim.

7. Olhos vendados

Pedir que algumas crianças guiem os colegas que estão com os olhos vendados é uma maneira de ensinar sobre amizade e ajuda voluntária. A atividade cria na turma o senso de cooperação e ética solidária. Além disso, ajuda a estimular a construção de vínculos de confiança, tão importantes na infância, devido ao seu impacto na idade adulta.

Ao condutor, a mensagem transmitida é de responsabilidade e respeito pelo outro. Já o conduzido obtém confiança no amigo e se sensibiliza com as limitações alheias, sentindo, na prática, a dificuldade de pessoas com deficiência visual. Para garantir ambas as experiências, é importante intercalar os papéis executados pelas crianças.

8. Pintura e desenho

A criatividade representada em rabiscos e espaços preenchidos com cores é excelente para expressar sentimentos e dar asas à imaginação dos pequenos. A vantagem é que eles podem ser feitos com qualquer tipo de material escolar, como papel sulfite, cartolina, giz de cera, lápis de cor, tinta e pincel.

O professor pode propor desenhos livres ou a reprodução de linhas retas (horizontais, verticais e diagonais), de figuras geométricas e de símbolos gráficos, a partir de modelos. Também pode fazer pinturas dirigidas/guiadas, estimulando o preenchimento completo do papel.

9. Jogos coletivos

Os tradicionais jogos coletivos sempre terão papel importante no desenvolvimento das habilidades cognitivas. Na educação infantil, o ideal é priorizar modalidades em que cada criança desempenhe papel importante para a execução da atividade. Assim, será possível despertar o senso de responsabilidade social e a autoconfiança.

Perceba que muitas dessas atividades permitem ao aluno praticar, sentir e assimilar sensorialmente os aprendizados. A experiência sensorial, por sua vez, é necessária para que o cérebro crie sinapses que associem os relatos teóricos aos fatos apresentados. É dessa forma que se constrói o verdadeiro desenvolvimento cognitivo.

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