Fake news na educação: como educar as crianças?

Se tem um assunto que aqueceu as discussões sobre educação em 2018, esse assunto é a polêmica das fake news. Ganhando ainda mais relevância na época das eleições, a pauta vem sendo amplamente debatida. Afinal, é um fato: a maioria dos estudantes não sabem identificar uma notícia falsa.

Neste contexto, como a escola pode agir para evitar a difusão desse tipo de conteúdo? Como podem ser debatidas essas fake news na educação? Nesse artigo a Ericka Kellner, jornalista do Estante Mágica, traz respostas e dicas muito importantes para você aprender como trabalhar esse assunto em sala de aula. Continue a leitura e descubra.

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A visão da BNCC sobre o tema

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento referência para a revisão das grades curriculares de todas as escolas até 2020, enfatiza a necessidade de desenvolver a criticidade no meio digital, como mostra o trecho abaixo:

“A viralização de conteúdos/publicações fomenta fenômenos como o da pós-verdade, em que as opiniões importam mais do que os fatos em si. Nesse contexto, torna-se menos importante checar/verificar se algo aconteceu do que simplesmente acreditar que aconteceu (já que isso vai ao encontro da própria opinião ou perspectiva). […]

Eis, então, a demanda que se coloca para a escola: contemplar de forma crítica essas novas práticas de linguagem e produções, não só na perspectiva de atender às muitas demandas sociais que convergem para um uso qualificado e ético das TDIC – necessário para o mundo do trabalho, para estudar, para a vida cotidiana etc. –, mas de também fomentar o debate e outras demandas sociais que cercam essas práticas e usos. É preciso saber reconhecer os discursos de ódio, refletir sobre os limites entre liberdade de expressão e ataque a direitos, aprender a debater ideias, considerando posições e argumentos contrários”.

Competências socioemocionais da BNCC

Como trabalhar fake news na educação?

Primeiramente, é essencial que seja explicado o próprio conceito de fake news na educação – explicar o que é uma notícia falsa, por que ela é danosa, como podemos combatê-la.

No caso das crianças, nada melhor do que recorrer ao bom e velho storytelling para explicar o significado do termo. E explicar o lide, que é o conjunto das informações básicas de uma notícia, é um primeiro passo para isso.

Que tal mostrar esse termo usando como metáfora a própria construção de uma narrativa? Mostre como a trama da chapeuzinho vermelho, por exemplo, responde às perguntas “o quê, quem, onde, quando, como, por que” (lide de uma notícia). Depois, transfira isso para um exercício: leve uma notícia de um jornal, bem pequena, e peça para os pequenos identificarem esse lide.

Depois, peça para eles mesmos produzirem uma notícia. Isso os fará ter contato direto com o processo de checagem, valendo-se dos métodos básicos de apuração que configuram uma notícia verdadeira.

Transformando a apuração em heroísmo

É notório que as crianças amam a ideia de super-herói: aquele que salva a sociedade de algum mal. E que tal brincar com esse desejo enquanto você os educam sobre os malefícios das fake news na educação?

Você pode, por exemplo, mostrar uma manchete falsa e colocar o aluno como o herói que irá desvendar essa farsa. Uma boa metáfora seria usando “As meninas superpoderosas”.

Use o “macaco louco” como o vilão que dissemina uma notícia alarmante, como uma epidemia, causando o pânico de toda a população. Notícia estampada na manchete do jornal da “cidade de Townsville” e caberá aos alunos desmentir esse conteúdo para tranquilizar a comunidade. Como eles podem fazer isso? Através das ferramentas “mágicas” de apuração:

  • Fonte: mostrar que a fonte da notícia não é confiável ou não existe, e que, por isso, a notícia não pode ser levada a sério;
  • Checagem: uma notícia dessa tem que ser confirmada pelo Ministério da Saúde. Se eles não confirmarem, ela não poderá ser noticiada;
  • Especialistas: você pode usar o médico para explicar essa técnica. Quando a criança está muito doente, onde ela vai? Ao médico que é um especialista, certo? Isso se aplica também à produção da notícia. Se está tendo uma epidemia, qual é a opinião de um especialista da área de saúde sobre isso? Ele acha a notícia verdadeira? Se não acha, por quê?

Esse “tripé” da apuração vai aguçar a curiosidade das crianças e ajudá-las a internalizar, aos pouquinhos, o senso crítico ao lidar com diversas notícias.

Explique a diferença entre a propaganda e uma notícia

Além da falta de veracidade, muitas pessoas podem acreditar em fake news por não conseguirem distinguir propaganda de notícia. Por isso, mostre em sala de aula essa diferença.

Exponha um jornal e aponte o que é propaganda nele, a linguagem publicitária, que é carregada de adjetivação. Depois, mostre a notícia, que tem linguagem jornalística, mais ligada a fatos.

Você pode explicitar essa diferença simulando uma situação entre os pequenos. Vamos supor que João tenha falado que o Pedro é mentiroso, mas não tenha dito por que.

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Os colegas espalhariam isso pela escola? Se sim, por quê? Onde está o fato que comprova que Pedro é mentiroso? Caso o colega não saiba dizer, isso pode ser uma fake news e prejudicar o colega injustamente.

Mostre como imagens podem ser manipuladas

O ditado “uma imagem vale mais do que mil palavras”, na nossa época, não pode ser levado muito a sério. E mostre aos alunos o porquê. Exiba alguma imagem manipulada e, em seguida, mostre como ela foi manipulada de tal forma por meio de um programa de edição de imagens. Sabendo dessa possibilidade, os alunos terão mais senso crítico e cautela ao acreditar em alguma imagem compartilhada nas redes.

Leve para a sala de aula o exemplo e promova debates para que todos pensem a respeito do conteúdo. Isso enriquecerá muito a troca!

Checklist da apuração

Por fim, para o estudante ficar seguro da credibilidade da notícia lida, peça para ele ter em mente as questões abaixo:

  • A matéria responde o lide?
  • Ela é assinada?
  • Outros veículos divulgaram essa notícia?
  • Qual é a data da notícia?
  • O site é confiável?

Se alguma dessas perguntas não for respondida, ele saberá que a notícia não é 100% confiável.

Conclusão

A alfabetização midiática é uma das demandas da BNCC, que estimula o pensamento crítico dos alunos para que eles sejam capazes de resolver problemas e sugerir soluções. A competência 5, sobre cultura digital, descreve da seguinte forma seu objetivo:

“Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva.”

Começar essa alfabetização desde cedo é fundamental não só para que os futuros cidadãos saibam identificar uma fake news na educação, mas para que eles sejam racionais e inteligentes emocionalmente, freando uma reação impulsiva diante de uma situação aparentemente caótica.

E não é que isso impacta positivamente nas competências socioemocionais, também tão enfatizadas pela Base Nacional Comum Curricular? 😉

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